Carnes de segundas
Ele tinha olhos estranhos. Não que houvesse algo de errado. Eram estrategicamente postos para cada necessidade de homem. De um lado, um vivo e esperto e sedento. Como aqueles que procuro quando a noite clama por uma companhia de acordos nada fraternais. Olhos do submundo da fina estampa. Brejeiro até! Ligeiro. Olho que persegue o “não” politicamente correto e puxa pela barra da camisa um “sim” condenável.
De outro, um olho de demora. De amassar os papéis minuciosamente para manter a mão em uso. Olho que acena estar indo, caso você não chegue em frames de segundo. E te suplica um colo do tamanho da mais generosa das almas.
Aquele olho quando a noite de tão caudalosa, escorre às pernas transformando-se em casca.
... Eu poderia morar cada dia em um daqueles olhos. Em cada crise antecipada morrer de espera ou acalanto. Depois mudar completamente de idéia e sair trotando uma aversão que não cabe na vista. Um verão que não soube botar cor no corpo em tela branca.
A cidade me sufoca de tanto espaço de ar. Ando tão lenta como as máquinas adormecidas das tecelagens. Sem fiar nada que não uma conversa fiada, desafinada. Uma rima porca. Até ontem era mais fácil contestar no espelho do banheiro, aos umbigos alinhados que me abarrotam uma lista de amigos “virtuais”. Hoje não. Foi mais covarde refazer o caminho de casa mais cedo. Foi inóspito ter hóspedes que amo em uma casa que não mora em mim. E eu deveria ter sido a ela, a quem tanto amo, a melhor das piores campainhas, como sempre fui. Com o mesmo sórdido resumo diário das coisas. E uma estrofe de uma música garimpada, ou uma frase mal salpiada de um livro roído pelas orelhas. Mas resumi o trágico-cômico-fantástico do “final tudo dará certo e seremos eternamente jovens”, com nuggets assados, umas críticas sobre atores vagos em roteiros esvoaçantes e uma aposta no bicho amanhã: Carneiro. E se amanhã der carneiro?
Resta-me, esta noite, Ella Fitzgerald baixinho, ao meu ouvido. Com algo de doce no rasgo inconteste da sua voz. Em poucos decibéis para não incomodar a tosse do meu vizinho viciado em máquinas caça-níqueis dos botecos que circundam esta região de gente antiga. E seus calções de cordão em listras.
Toda noite ele se põe em alinho – camisa dentro da calça -, coordena os fios do bigode grisalho em duas passadas de dedo e bate forte a porta tão emperrada quanto a minha, e segue para se entreter. Quando volta, o clarão da varanda apertada toma a minha janela. E é confortável saber que há mais alguém do outro lado da parede.
Ele vive sozinho em um espaço para caber nele. Ele tem rituais e me dá bom dia sem me olhar nos olhos. E é até boa esta intimidade sem tratados de confrades.
Noites destas, quando a tosse vizinha até estava mais branda, talvez por ser início da semana. Um homem masturbava-se sob a minha tela. Um dorso de homem em uma cueca cinza que me lembrou aquelas camiseta básicas da Hering. E eu queria muito escrever heroicamente sobre umas mulheres que aconteciam nos dias mais improváveis e ele insistia para que eu aceitasse a tal da “cam”. Aceitei pelo cansaço.
Ele se masturbava enquanto Herbie Hancock zunia baixo no rádio. Quando gozou me pediu uma opinião: Gostou? Não era o dia, eu queria dizer sem parecer fria diante à performance. Lembrei das histórias de dores de cabeça e vontades de escovar os dentes. Desisti. Disse que pessoas e suas peculiaridades me encantavam. Ele se animou. Colou os dedos na gosma da porra para que eu me sensibilizasse mais com a cena. Achei grosseiro e interessante e esteticamente plástico e material em bom estado e apreciável e perguntei amenidades como: “O que você sente fazendo isso? Quantas vezes faz? Por qual motivo? Qual sua idade? É casado e quanto distante está desta cidade????” Enfim....Quando contei a minha profissão ele disse boa noite. Desconectou-se. Taí, por preconceito não me permitem ser mais puta, oras!
Nem mais jornalistas, ativistas, loucos, pacifistas, extremistas de qualquer lado ou do outro. Nem mais a clausura da dor que é de aturar. Ai, essas criaturasssss! Ai essas nomenclaturas e tantas receitas de como fazer um bolo de liquidificador. Ai é assim que é amor! Ai, assim você morre antes da idade de Balzac chegar. Assim você será despedida! Assim você parece estar despida! Assim eu passo mal! Ai Deus!!!!!!!!
Assim eu queria tudo isso agora e urgente. Menos gente, mais das gentes.
Onde anda aquelas pessoas que ainda infamam flâmulas? E onde em mim hiberna este incendiário? Como dizer ao mundo que não quero comprar uma receita para “emagrecer dormindo” ou um remédio para “aumentar meu pênis?”. Também não me interessa o que o seu namorado (aquele safado), filmou da intimidade de vocês. Dá para voltar a viver na bolha, heinn?
Mas eu dizia que ele tem olhos estranhos, do tamanho da minha voz que não atinge distância e também o tamanho desta ânsia em não caber nos tais dos meus latifúndios. É cova rasa e ao mesmo tempo é tudo o que o corpo precisa. 7 palmos medida. Qual é a profundidade e a largura do corpo que se desprende?
Hoje foi mais fácil aprender que há coisas que a gente não apreende.

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